Preliminares

Saliva e língua em sua gélida orelha. Sussurro palavras sujas, quentes e intranqüilas. Na calada da noite, a excitação da mente é a chave libidinosa que abre as algemas da solidão. Acaricie ou dê um tapa amoroso, porém não me espere tomar a iniciativa.

Depois de um cigarro:

Renegado
Vida Caxxorra
Blog do Eu sozinho
Pedro Carmargos...
Subversiva
Jesus, me chicoteia!
Mulé Burra
Gerolino Incorp.
Psicólogo Neurótico
Café Morno


Transas Passadas:



O Ponto de Encontro dos Blogueiros do Brasil








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11.8.07

SEPARAÇÃO

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história de amor, que é história do mundo. Ela o olhava com olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real, mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde se lembraria não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembraria ter dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes da separação.

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, aporta sobre si mesmo numa tentativa de secionar aqueles dois mundo que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E, no entanto, ali estava a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela,a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos a agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa nudez, já envolta em seu espaço próprio.
Perdida em suas cogitações próprias – um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...


:: Cantão lambeu e provocou às | 3:27:40 PM Gemidos:

21.6.07

Sempre tive medo de me transformar numa pessoa amargurada,
Hoje, no auge da minha idade, é só a tristeza que me abraça forte.
Junto com a solidão que me faz cafuné. Ah, solidão! Quanta gente do meu lado... Engraçado. Tenho medo de me aproximar, mas passo mal sem elas...
Pessoas sempre tão seguras de si, sempre tão cheias de aventura e brilho.
Por que eu não sou assim? Eu não sou assim?
Esmagam-me como um rato asqueroso e insignificante.
Aliás, não entendo ninguém (nem sei se gosto de verdade de alguém), na verdade tenho medo de mim. Vergonha também. Mas por quê?
Meu destino é ficar louco, mesmo que um pouco, e mesmo que por pouco não seja.
Não serei mais do que sou. E as pessoas continuarão em bolhas que me impedem um abraço verdadeiro. A mim, resta-me somente ser humano, observando a todos, melancólico, num quase-sonho, namorando a vida pela vitrine...

:: Cantão lambeu e provocou às | 9:08:34 PM Gemidos:

9.2.07

INERCIANDO

Que povo feliz é este que inventou a palavra saudade?

:: Cantão lambeu e provocou às | 5:46:40 PM Gemidos:

11.12.06

CAMINHANDO Parte 2

Já havia guardado esta garota no fundo da minha alma. Chorei, ridículo, e sorri, bobo, por ela. Mas nenhuma mulher gosta de um homem apaixonado. No começo pode ser bonitinho e tal, mas todas elas sabem que um homem apaixonado é como um cão abanando o rabo. Pois o cão só é notado de verdade quando se falta companhia, quando se sentirem sozinhas. E o maldito cão sempre estará lá, lambendo, pulando e babando. Depois a solidão passa (sempre passa) e o cão volta pra casinha, esperando aflito por outro raro momento atenção da dona. Até que, no final, ele se cansa totalmente e vira um demônio. Já fui cão e já fui demônio. Agora estou mais para um bicho preguiça: quieto, desapegado e sem esperança.

O ônibus subia a Rebouças bem veloz. Estamos em dezembro, o trânsito estava ótimo. Os burgueses de merda não saíram com seus inúmeros carros para levarem seus filhos babacas para a escola. Odeio o modo medroso e piedoso com que estes riquinhos daqui encaram o mundo. Parecem que vivem em um enorme safári humano, todos protegidos dentro de suas cápsulas de dinheiro, mantendo distância dos "animais". Um bando de escravos da hipocrisia.

Mas, falando nisso, outra coisa que não consigo entender direito a relação de amor e ódio do ser humano. Você pode gostar de uma pessoa mais do que gosta de você mesmo. Mas basta um pensamento fugidio, uma reação inesperada ou simplesmente um olhar teimoso para transformar compaixão em raiva. Eu sou assim. Vale lembrar que tenho todos os defeitos humanos. Ao quadrado.

Hoje eu posso dizer que não odeio a Joana, mas tenho uma gota suja de rancor que não secou, por mais que o tempo tenha passado. Porém, hoje, com aquilo que ela me escreveu, sentia que estava amolecendo a cada minuto.

- Seu Márcio, é um absurdo o tanto que esta mocidade é mal educada. A geração tá perdida, não se tem respeito mais por ninguém. Você acredita que chegando em casa, minha neta de 5 anos, CINCO ANOS, falou coisas horríveis? É que dá, não tem criação, o pai e a mãe só trabalham, ela fica o dia inteiro na frente da porcaria da TV! - gritava indignada uma velhinha com o motorista.

Geralmente encontro as mesmas pessoas no ônibus. Uma destas pessoas é esta velha baixinha, com um lenço na cabeça e uma sacola de feira nas mãos. Ela sempre se senta no primeiro banco com o intuito de conversar com o motorista e amenizar a indiferença da família. O motorista ouve, concorda, mas não absorve mais do que duas frases. Se o fizesse já estaria louco.
A velhinha sempre me chamou mais atenção que o restante, talvez porque me incomodasse demais. Pois ela é o resultado da vida, é como se olhar no espelho, como se ver daqui a alguns anos. Isso é assustador.

Já as outras pessoas não têm "gosto". Têm cara de nada e mal falam. Estamos em São Paulo, o que mais eu esperaria? Cheguei ao meu destino e caminhei de cabeça erguida pela Praça Ramos de Azevedo, com a boa e velha sensação da liberdade que eu não possuo.

continua...

:: Cantão lambeu e provocou às | 4:18:35 PM Gemidos:

1.12.06

CAMINHANDO

Acordei extasiado, bem diferente do meu jeito sonolento e distante. Parecia que o amor (que estava murcho em meu peito) nasceria novamente para depois me matar. Mais uma vez gostava de alguém, ou pelo menos achava isso, como na maioria das vezes. Saindo de casa, caminhei pela minha rua. Meus vizinhos, os mesmo vizinhos de sempre, conversavam, saudavam e comentavam sobre a vida alheia, como jornalistas de imprensa sensacionalista. Nunca liguei para eles e talvez por isso eles liguem tanto para mim. Passei rapidamente sem olhar para os lados e em instantes cheguei ao ponto. Acendi um cigarro e traguei com muito gosto, como se o mesmo fosse o último, mas não era. Já havia prometido mil vezes que pararia de fumar esta porra. Traguei novamente e joguei o cigarro no chão, o ônibus chegara. Maldito e sujo, ele mais se assemelhava a um cargueiro de bois tristes esperando a morte. Eu era mais um e nem ligava. Sentei no banco e comecei a pensar nela.

Continua

:: Cantão lambeu e provocou às | 1:50:17 PM Gemidos:

21.9.06

PODER

Pode ser feliz ao extremo, a ponto de ser fútil.
Tudo bem, pois, no fundo, a felicidade incondicional é invejada e procurada por todos.

Pode também ser a pessoa mais triste do mundo, sentindo um vão na alma.
Não importa. Esta tristeza encharca tua alma de lucidez e o melancólico coração de zelo

Pode ser a pessoa que mais acredita no amor e, ainda assim, você não será um tolo.
Acreditar fervorosamente é a força incomensurável de uma criança.

Pode duvidar de forma convicta do amor, do homem e da vida. Terá alguma razão.
O ceticismo guia por um caminho único. Dignamente, você tropeçará em suas próprias pedras.

Pode gritar a todo momento ou falar num murmúrio quase mudo
Pode correr à revelia ou caminhar passo a passo vagarosamente
Pode ser comodista burguês ou um incansável e benévolo missionário
Pode ser tudo DESCOMEDIDAMENTE!

Deus ou o diabo, o céu ou o mar, um velho ou um feto,
Pode, sim!

Só não seja médio. Só não seja moderado.
Porque aí, sim, você padecerá sem clemência, pois a falta de intensidade só traz a indiferença como prenda.

:: Cantão lambeu e provocou às | 10:22:03 PM Gemidos:

31.5.06

WOLF

Meu cachorro (um husky siberiano chamado 'Wolf') estava muito mal há alguns dias. Ele está com um tumor embaixo do rabo que os veterinários acham que é um tipo de câncer. O pobre está com aquela proteção em forma de cone no pescoço e todo dia se bate todo na parede, na porta, no portão, pois fica desorientado. Semana passada, mais precisamente no sábado, ficou deitado, bem menos vivo do que tempos atrás. Olhei para ele, fiz um carinho, como de costume, e ele me fitou de volta, como se pedisse ajuda, atenção, sei lá! Durante muito tempo pensei naquele olhar, aquele olhar de quem sabe que a morte está próxima, que há pouco tempo. E o que fazemos quando sabemos que temos pouco tempo? Acho que, assim como o Wolf, nós tentamos observar mais as coisas, olhar o mundo sem a nossa presença, notar melhor quem nos ama. E é só no fim, ou na proximidade deste, que a gente faz isso. Isso me lembrou que as pessoas ao meu redor podem partir a qualquer momento e, infelizmente, eu também só terei noção da importância no FIM eminente.

:: Cantão lambeu e provocou às | 4:40:00 PM Gemidos:

24.4.06

CHEIRO

Dizem que a mulher sente (mesmo distante) o cheiro da solidão num homem. Convenhamos, não é à toa que se afastam. Deve ser um cheiro horrível.

:: Cantão lambeu e provocou às | 4:04:08 PM Gemidos:

20.4.06

SODOMA E GOMORRA

Andando pelas ruas, vi um bebê, com suas mãos roliças e inocentes, brincando no jardim. Cutucava um formigueiro com um palito de picolé. Estava distraído, como quem não quer nada do mundo, e, naquele momento, ele realmente não queria. Cada vez que mexia na terra, o formigueiro se desmanchava e as formigas se desesperavam. Ele gargalhava docemente, batia palmas, erguia os bracinhos e olhava encantado para a sua mãe que o vigiava à distância. Sentia aquela felicidade de quando ainda não se conhece a vida. Sua alegria era sincera e espontânea, pois não sabia do sofrimento dos pobres insetos que clamavam por perdão, debatendo-se uns nos outros e correndo para todos os lados.

As formigas queriam pará-lo! Mas o que poderiam fazer? Nada podiam fazer as formigas contra a inconsciência de um bebê brincando no jardim. Não sabiam com quem estavam lidando. Só sabiam que ele estava acabando com as suas vidas, talvez querendo mostrar algo. Mas na verdade ainda era uma doce criança. Apenas uma criança.

:: Cantão lambeu e provocou às | 3:57:12 PM Gemidos:

5.4.06

SACODINDO A POEIRA

Há muito tempo não me sentia tão bem. Pareço mais leve agora, pois realmente havia um fardo pesado me fazendo mal. Eu me cobrei demais, sem ter motivos para isso. Eu sei que fiz o possível e, várias vezes, o impossível para que tudo acontecesse. Mas não adianta, pois a estrada precisa correr para os dois lados. Preocupei-me erroneamente com pessoas que nem devem notar ou se preocupar com minha existência, que nunca souberam e provavelmente nunca saberão o que eu sinto. Estas pessoas devem estar muito preocupadas com outras pessoas que também não lhe dão atenção. É um ciclo infinito de desencontros.

Hoje eu parei de procurar. Hoje eu não espero.
Eu quero ser como o vento, que não sabe para onde vai, que é muitas vezes esquecido pela maioria. Porque o vento não espera por ninguém que não o ame, quem for rápido e persistente o bastante, um dia irá alcançá-lo. E é assim que quero viver para mim. Tive certeza disso ontem, quando li uma frase de Clarice Lispector; e eu nem conheço muito dela (e o que eu já li, não gostei muito), mas esta frase foi como uma martelada na alma: Olha pra mim e me ama. Não. Tu olhas pra ti e te amas É o que está certo. Logo que li, pensei: "Caralho, eu não estou me amando. Será que um outro alguém conseguirá me amar?". Mas se amar é olhar para dentro e, quando fiz isso, reparei que meu quarto estava bagunçado demais. Pois, por fora, as pessoas desejam ser belas e iluminadas vitrines, mas internamente escondem toda a sujeira debaixo do tapete. Mas ninguém nunca descobre esta sujeira, pois o mundo todo fica admirando a roseira dos outros e escondendo o seu próprio lixo.

A única coisa que me importa agora é a minha alegria. Se alguém quiser colher flores da mesma terra, que o jardim seja compartilhado, mas que não regue sua própria felicidade apenas com os meus melhores sentimentos. Nessas condições, fico com eles só para mim.

:: Cantão lambeu e provocou às | 4:11:17 PM Gemidos:

3.4.06

FUTEBOL E MULHER

Domingo foi uma "briga" sem igual na minha casa. Meu pai é santista, meu irmão e eu somos são-paulinos. Então, logicamente, rolou aquela provocação antes do jogo:

Pai: No meu tempo, o São Paulo só tomava de goleada dos Santos. Era sempre 4 a 0, 5 a 1 com gols e humilhação do quarteto: Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

**********
Fazendo uma pequena pausa neste início de diálogo, pois já que estamos falando em santistas, devo informar aos menos entendidos de futebol que todo santista fanático é um saudosista nato. Santista que é santista adora jogadores velhos, times velhos (como o Santos), títulos velhos e qualquer diversão, desde que seja de velho. Certa vez, um amigo meu, vidrado por futebol de botão (brincadeira de velho), mostrou-me sua coleção. Uma belíssima coleção, diga-se de passagem. Ele sabia o nome de todos os jogadores (botões, na verdade). De repente ele se anima e retira do armário uma pequena caixa dourada com uma coroa desenhada na tampa e internamente toda encapada com feltro vermelho. Ele abriu a caixinha, tirou um objeto de dentro e seus olhos começaram a brilhar de emoção. Por um momento, pensei que ele me pediria em casamento. Graças a deus, não era isso. Ele lustrou com uma flanela e me mostrou um botão do Santos com o número 10, completando, depois de um longo suspiro, com a seguinte frase: "Pelééé. Ahhhhhh!".
Bom, este é um exemplo de santista fanático. Continuando com o diálogo:

**********

Eu: Ah vai, pai, naquele tempo a bola era de meia e os jogadores jogavam de sapato social! Não conta!

Pai: Ah é? Então, qual foi a última vez que o São Paulo ganhou do Santos?

Eu: Ééérrr... Hummmm.... Ahhhhhh... Mas quem é o único TRI-MUNDIAL!?

Pai: Ééérrr... Hummmm.... Ahhhhhh... Mas, mas, mas... - Irany, o que você vai fazer hoje para o jantar?

Meu pai não é um cara muito argumentativo.

E ontem realmente não era o dia dele. Show do São Paulo, vitória tricolor e ainda por cima o juiz expulsando um jogador do time do Santos. E foi por causa disso que começou a choradeira.

Pai: Este juiz ladrão do cacete, esta jogada não era para expulsão de jeito nenhum...

Eu: Lógico que era. Ele deu uma voadora com os pés juntos, estilo Zangief do Street Fighter.

Pai: Nem acertou, olha lá, olha lá! Não chegou nem a fazer cócegas no jogador do São Paulo. Só deu uma encostadinha!

Eu: Encostadinha? Precisa quebrar a perna para dar cartão? Quer dizer que se eu sou um ladrão e atirar mirando suas partes baixas, eu não serei preso, porque não te matei?

Minha mãe, que não entende nada de futebol, nem consegue diferenciar o juiz do técnico, sai da cozinha e interrompe a conversa:

Mãe: Filho, acho que você está errado. Matar um morto não é crime.

Pai: ..............

Depois disso, minha mãe e eu rimos, mas meu pai ficou cabisbaixo. A discussão acabou ali. Minha mãe, ainda não satisfeita, continua:

Mãe: Carlos, era brincadeira. ELE não está morto e nada poderá matá-lo! É praticamente um ser imortal. Agora, por favor, vá comprar massa de tomate no mercado para mim?

Pai: De qual marca????

QUAL É A MORAL DA HISTÓRIA?

Opção (1) As mulheres não entendem de futebol porque senão dominariam, além de seus respectivos maridos, o mundo inteiro;

Opção (2) A maior vergonha de um homem não é quando o time do coração perde.

Opção (3) Depois dos 50 anos é sempre bom estocar Viagra.

Façam suas apostas.

:: Cantão lambeu e provocou às | 6:02:41 PM Gemidos:

27.3.06

RECADO (ou 'sai da frente, porra')

Meu vocabulário é escasso e tímido, mas minha mente é muito sincera. No final, as palavras sempre saem como flechas sem direção. É melhor se abaixar antes que eu lhe esqueça.

:: Cantão lambeu e provocou às | 4:44:13 PM Gemidos:

16.3.06

CINEMA

Acabou o dissabor quando as luzes apagaram. Entrou em cena o ator com as mãos fugindo para perto dela e a ficção virando realidade, deixando de ser novela. Quando a claquete apareceu, ela nem se mexeu, a maquilagem nem borrou e nenhuma lágrima desceu. O mocinho, atordoado, com seu coração de lado, morreu no abandono, pois sabia, sim, que por mais que amasse, o seu romance continuaria sem dono e sem fim.

:: Cantão lambeu e provocou às | 2:04:11 PM Gemidos:

13.3.06

NATÁLIA (Série ''Feitos no Carnaval' - 2 de 5)

(Francisco Cantão)

Abre a alma e fecha o coração
Brinca dizendo "sim",
Quando na verdade diz "não"
Anda por aí, revirando latas
De dúvidas e de falhas
De homens que gostam de mistérios,
Dos grandes olhos sinceros,
Olhos de Natália,
Que vagam pelo mundo perdido
Procurando um alguém que valha

:: Cantão lambeu e provocou às | 11:10:55 AM Gemidos:

3.3.06

SEXTA

Daqui a pouco irei tomar umas na padoca, ficar alegre, depois deprimido e bradar sentimentos dos quais nem sei explicar. Depois vou chegar em casa e fazer um monte de coisas que não gostaria de fazer. Para finalizar, dormirei profundamente, como uma criança dorme após surra do pai.

Não pensem que isso é ruim. Eu adoro sexta-feira!!

:: Cantão lambeu e provocou às | 6:11:47 PM Gemidos:

5.9.05

PALHAÇOS

Quando era moleque achava o circo um lugar perfeito, um paraíso onde só existia diversão, magia e viagens épicas em lugares diferentes e encantadores. Os elefantes mostrando sua grandiosidade desajeitada e lenta, fazendo truques incríveis com a tromba e erguendo suas enormes patas dianteiras em forma de saudação. Que seres fantásticos são os elefantes! São amigos de todos, pois conhecem sua real força. Conseguimos perceber o sorriso invisível que emana de sua face rechonchuda e se esconde atrás de suas presas brancas e afiadas.
Ao contrário dos elefantes temos o tigre, que esconde como poucos as suas reais intenções. Não por esperteza ou inteligência, mas sim por precaução e pavor que carrega do mundo. O medo que consegue fantasiar-se na aparente cólera de seu belo olhar, nos movimentos graciosos de seu sinuoso corpo. Um tigre verdadeiro sempre acredita que existe alguém ou olhares perseguindo-no. E realmente sempre há olhos que se hipnotizam por eles, mas quase ninguém sabe a covardia que ostenta nas listras cansadas. A solidão é a única que o aconchega.
Gostava de todos os animais e atrações: as focas com sua habilidade com a bola no nariz, os serelepes macaquinhos brincando de forma descontraída, os elegantes cavalos velozes e por aí vai. Os mágicos fazendo sumir e aparecer coisas e pessoas. Os trapezistas saltando e saltando!
Mas o que mais me chamava atenção eram os palhaços. Sempre gostei mais dos palhaços. Não somente porque eram hilários, mas porque eles eram aquilo que eu gostaria de ser, sempre seguros, espertos e admirados. Aliás, não é tão difícil saber porque todo mundo gosta deles. Um palhaço sempre sabe a hora certa de dizer algo, tem a capacidade de ser engraçado, de fazer as pessoas rirem ou chorarem e se sentirem bem ou mal. Estão sempre alheios a tudo, pois são a referência, os donos do palco.
Entretanto, foi justamente por causa dos palhaços que deixei de gostar de circo. Quando cresci e vi que eles eram somente homens. Homens que, quando desarmam a maquiagem, tiram o nariz vermelho, borram a gargalhada pintada e despem-se das calças largas e dos sapatos grandes, mostram qualquer vício que só um homem pode possuir.
E eu fiquei sem saber porque toda esta transformação. Pode ser para ofuscar a sinceridade do elefante, a timidez do tigre, quem sabe? Ou talvez os palhaços não se deram conta que as crianças ainda são o grande público.

:: Cantão lambeu e provocou às | 10:17:24 PM Gemidos:

5.8.05

JOGO

Desse jogo aí, eu só quero a derrota.
Aquela que nocauteia a auto-estima, aquela que derruba o orgulho do desfiladeiro mais alto e frio. E é por isso que eu só quero a derrota. Eu odeio a idéia de vencer.
Os vencedores são escravos de si mesmos. O vencedor é o garoto popular que se fantasia em seu (alter-)ego para massacrar, sem o mínimo de condolência, o cara que perde o emprego sem causa, o nerd que insiste em ser diferente da maioria, a menina gorda que os meninos espertos sequer dizem "oi", etc.. Não, nesse jogo eu não sou um vencedor. Creio que nunca serei.

:: Cantão lambeu e provocou às | 4:12:51 PM Gemidos:

17.6.05

ÓSTIA E VINHO

"Jesus estava à mesa com os apóstolos, tomou o pão e rezou, louvando e agradecendo. Depois, partiu o pão e o deu aos seus amigos, dizendo:
- Tomai todos e comei, isto é o meu corpo que será entregue(...) Tomai todos e bebei, isto é o meu sangue (...) Fazei isto em memória de mim".




Oito horas da manhã e lá estava Francis. Sério, engravatado e bem alinhado, como sempre. Sentado em sua confortável cadeira e apoiando os braços sobre a mesa de vidro. Estava respondendo mais um e-mail e desconcentrou-se, pois observara o porta-retrato ao lado do telefone. Lá estavam ele, sua ex-mulher e sua filha que estuda em Paris. Esta, que na velha fotografia ainda era um bebê loiro com os olhos estalados. Sentiu saudades. Nem percebeu o tempo escorrer pela janela do 15º andar do edifício de sua empresa.
Conseguiu se concentrar novamente e voltou ao trabalho. Luzinete, sua secretária, lhe deu o sorriso mais lindo que alguém pode receber, seus lábios delicados pareciam fazer o sol brilhar cada vez mais. Ela se levantou de sua mesa, o vestidinho azul que vestia tinha o poder de atrair os olhos dos homens. Olhou sutilmente por cima dos óculos e foi conversar com Francis.

- Senhor Macomber, aceita um café?
- Por enquanto não, Luzinete. Ando com uma insônia absurda.
- Precisa se divertir mais.
- Talvez sim, talvez não.
- Ora, deixa disso, que tal jantarmos no Charles sexta feira?
- Pode ser, Lu. Eu passo no seu apartamento às nove, ok?
- Claro! - disse Luzinete, mal conseguindo disfarçar a empolgação e já imaginando a cara das meninas quando lhes contasse sobre seu encontro com o chefe. Saiu saltitando e mexendo os quadris, para delírio de Jonas, o estagiário.

Francis abriu um sorriso morno que não combinou com seus cabelos levemente grisalhos e seus olhos azuis. Voltou ao trabalho, desanimado e mal humorado, como sempre. Sua agenda naquela semana estava mais preenchida do que nunca. Foi a uma feira de franquias, a um workshop empresarial, teria que jantar com Luzinete na sexta e teria mil e uma reuniões sobre parcerias e negócios, ora tentando tomar o dinheiro de alguém, ora tentando se desvencilhar dos que tentam lhe tomar o dinheiro. "É assim que funciona o mercado", dizia sempre para si mesmo. A empresa ia muito bem. Já era uma grande corporação quando o pai de Francis administrava e, naquele momento, crescia constantemente, tanto no número de funcionários, que aumentava mês a mês, quanto no faturamento que ia de vento em popa.

Já eram duas horas da tarde, não iria almoçar, estava se sentindo cansado, mais do que isso, estava farto de almoços animados com gente paparicando e contando vantagens a fim de impressioná-lo. Ficaria com seu laptop, fiel amigo. Ficaria. Pois a convicção de Francis foi por água abaixo quando Valdenir, diretor financeiro, lhe chamou, disse que precisava conversar e pediu para almoçar junto com ele, pois tinha algo importante a dizer e precisava de um pouco de privacidade. Francis sabia que nada era tão importante que precisasse de tanta privacidade. Provavelmente, Valdenir iria discursar sobre dificuldades e tentar valorizar seu trabalho e, conseqüentemente, seus benefícios e regalias, quem sabe? Francis aceitou. Não podia recusar. Foi ao banheiro arrumar o cabelo e viu suas pequenas ruga e seus olhos tristes pintados no espelho. Chorou e soluçou, como sempre. Trancou a porta do banheiro e engoliu sua dose diária de Prozac com um gole na pequena garrafa de whisky que carregava no paletó. Colocou uma bala de hortelã na boca, penteou o cabelo e já se sentia bem melhor, afinal, não poderia esmorecer, era Francis Macomber: empresário, rico e feliz.

:: Cantão lambeu e provocou às | 11:00:03 PM Gemidos:

28.5.05

DUAS CARAS

Uma quer viver com você para sempre, a outra se contenta com um cinema no domingo. Enquanto uma quer sinceridade, a outra gosta de admirar olhos grandes e verdes.Uma quer declarações afogueadas, a outra se contenta com uma canção complicada.
E assim caminham lado a lado, se contradizendo, contendo multidões. Não se escondem. Aliás, uma se esconde. A outra é criança chorando.

Você me diz que eu tenho duas caras. Pois bem, eu tenho duas caras, sim.

E você, quantas caras tem?

:: Cantão lambeu e provocou às | 11:46:31 PM Gemidos:

15.5.05

BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS



Está ficando redundante, mas já falei sutilmente sobre esta obra-prima que se chama "Brilho Eterno de uma mente sem lembranças" e agora faço uma intimação para todos assistirem! Por quê? Simples, porque ele é diferente. Trata dos sentimentos de uma forma nova (um roteiro maravilhoso, diga-se de passagem). Quem nunca pensou em apagar alguém da memória? Amores mal terminados sempre ocasionam este tipo de pensamento. E é por aí que o filme se desenrola, pelas memórias de Joel, homem introvertido e inseguro que, ao saber que sua namorada (Clementine) o apaga da memória, faz o mesmo com ela. E no momento da destruição de suas memórias, Joel começa a relembrar os bons momentos com Clem, mais que isso, começa a ver que as adversidades e desencontros eram ínfimos perto da felicidade da convivência, descobriu que nunca foi tão feliz sem ela. Se você gosta dos filmes da Meg Ryan, pode ser que não goste deste filme, pois o final não é feliz, nem triste. E isso é perturbador, embora seja lindo, a incerteza é linda. Não saber o que vai acontecer, deixar a vida nos soprar para caminhos desconhecidos, para amores que dificilmente acabarão bem, enfim, acho que o diálogo no final do filme, quando Joel e Clementine se encontram novamente e descobrem que haviam se apagado, resume o que é o sentimento puro, a entrega total:

Joel Barish: I can't see anything that I don't like about you

Clementine Kruczynski: But you will, you will think about things and I will get bored with you and feel trapped cause that's what happens with me.

Joel Barish: It's ok.



PS: Fora o filme que é maravilhoso, há citações belíssimas durante o mesmo, deixo um pedacinho de um poema do Alexander Pope, Eloisa to Abelard:

"How happy is the blameless vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd"

Quem quiser ver o poema inteiro, clique aqui. Vale a pena, tem 366 versos, um mais bonito que o outro. O que estão esperando? Corram para a locadora, comprem o dvd, assistam no Telecine, etc.. Depois me cobrem, se não gostarem :P

:: Cantão lambeu e provocou às | 8:13:58 PM Gemidos: